O que devemos lembrar e o que devemos “esquecer” desses Jogos Olímpicos

Bolt foi, sem dúvidas, o maior medalhista nas pistas e no carismas (Foto: Reprodução Instagram)

O Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro deixaram saudade. Já teve textão pedindo a volta das diversas modalidades, e textão pedindo para que as pessoas parem de falar das Olimpíadas. Bem, como na internet muita coisa se perde, resolvemos lembrar alguns fatos que podem ter se perdido ao longo dos dias dos jogos. E algumas coisas que deveríamos “esquecer”. E as aspas tem um fundamento, que ao final deste pequeno relato fará um pouco mais de sentido.

Então vamos lá, o que devemos lembrar da Rio 2016:

Parque Olímpico

Certamente o Parque Olímpico na Barra da Tijuca (e também o de Deodoro, claro, em menor escala) foi um dos pontos a se destacar nos Jogos Rio 2016. O estilo Fan Fest tomou conta dos locais e muita gente que foi para curtir uma só modalidade, acabava ficando por ali, curtindo, conversando e interagindo. E também houve quem chegou cedo e saiu só nos momentos finais, aproveitando cada minuto das festas. O brasileiro, e principalmente o carioca, soube receber os turistas de todo o mundo, e apesar de alguns problemas com argentinos, relatados ao longo dos jogos, tudo ocorreu bem. Vale ser lembrado, e muito!

Mitos do esporte

Foto:Alexandre Loureiro/Exemplus/COB
Seginho chegou a sua quarta medalha olímpica e foi eleito o MVP – Foto:Alexandre Loureiro/Exemplus/COB

Esta Olimpíada foi, sem dúvidas, a dos mitos. Pessoas que se tornaram lendas do esporte, e algumas que surgem prometendo assombrar ainda mais o cenário. Michael Phelps e suas medalhas de ouro, Bolt (também com ouros) e seu carisma, Simone Biles mostrando que entrará para o hall das maiores da ginástica e do esporte e por que não Bernadinho, Serginho e Isaquias Queiroz, que saem como os maiores nomes do Brasil. Os dois primeiros, por estarem nas últimas quatro finais olímpicas, e, mais do que nunca, eternizando o nome no país que já mostrou várias vezes que é a nação do vôlei. O segundo, também pelo seu carisma e humildade, mas principalmente pelo talento. Com apenas 22 anos, e já com três medalhas em uma só edição, Isaquias já entrou para a história do Brasil, como o maior vencedor em só Olimpíada.

Getty Images - clive rose
Phelps começou no Rio como o lenda e saiu quase como um deus das piscinas – Foto: Getty Images/ Clive Rose

Torcida

Apesar de algumas modalidades não contarem com casa cheia, a grande maioria das arenas e estádios estiveram lotados. E a torcida brasileira fez a diferença. No handebol, empurrando o time masculino contra seleções praticamente imbatíveis; no polo, quando mesmo quem não acompanhava, se emocionou e apoiou; no vôlei, onde o Maracanãzinho foi um verdadeiro caldeirão e um atleta a mais em quadra; no futebol, onde apesar das vaias iniciais, demonstrou muito apoio e emoção na final e claro, no atletismo, quando Thiago Braz, que nunca tinha saltado mais de seis metros, foi praticamente levantado nos braços, e alcançou o recorde olímpico. Ao francês “chorão” e aos que concordaram com suas reclamações, resta o pedido de desculpa simbólico, já que é do esporte, e não há como podar a maneira de alguém torcer e se expressar.

Foto: Flávio Florido/Exemplus/COB
O Maracanã viu uma festa gigantesca com o inédito ouro no futebol – Foto: Flávio Florido/Exemplus/COB

Obs: O brasileiro torceu tanto, que até para o juiz no boxe nosso “patriotismo” foi visto.

Aclamação por novas modalidades

Vivemos em uma cultura monoesportista. Culpa nossa (imprensa), dos patrocinadores e até mesmo da população em alguns momentos. Mas esquecendo dos culpados, foi muito bacana ver o apoio, como escrevi em um dos tópicos anteriores, da torcida e dos meios de comunicação a outras modalidades antes renegadas. Espero que este seja o maior legado dos jogos, que nós, brasileiros, comecemos a dar mais valor a outros esportes.

Alexandre Loureiro/Exemplus/COB
Isaquias e Erlon devem seguir levando o nome da canoagem ainda mais longe – Foto: Alexandre Loureiro/Exemplus/COB

Redenção de atletas

O esporte é uma das formas de inclusão social, de ascensão e de redenção. E nesses jogos, vale ressaltar a volta por cima de dois nomes, principalmente: Diego Hipólito e Bruninho. Hipólito, julgado e vítima às vezes de preconceito, conseguiu dar a volta por cima, e certamente, sua felicidade ao levar a prata foi um dos momentos marcantes dos Jogos. Como ele mesmo disse. Caiu de bunda, depois de cara e no final em pé. E também Bruninho. O levantador, que poderia estar fadado a carregar o rótulo de “filho do Bernardinho” e o ícone de uma geração de prata, foi fundamental para o outro no vôlei e se emocionou muito, e comoveu a todos no Maracanãzinho.

Foto: Washington Alves/Exemplus/COB
Diego caiu, mas levantou. Foi um verdadeiro vencedor – Foto: Washington Alves/Exemplus/COB

Nenhum incidente grave

Felizmente, nenhum incidente (fora os problemas normais do Rio de Janeiro  e de qualquer evento de grande porte– Sim, a cidade tem e continuará tendo problemas) mais grave aconteceu. Como muitos esperavam ou até torciam. Parabéns aos organizadores, torcedores e atletas.

Agora, o que devemos “esquecer” da Rio 2016:

Vaias e imprensa internacional “caçando” problemas no Rio

Primeiramente, vale  ressaltar que é normal a imprensa internacional e até a nacional procurar problemas em grandes eventos. Pois “problema” vende jornal. “Tudo está bem no Rio” = Ninguém quer saber. Agora, nadador americano é assaltado por falsos policiais, sim, todos querem saber. Portanto, não me espanta a atitude de muitos veículos de comunicação, que até com o biscoito globo, um símbolo do Rio de Janeiro, implicaram. Criticaram e tentavam até podar o torcedor. Sim, ninguém é idiota, sabemos que há esportes que é necessário mais silêncio, mas primeiro, não há um manual do torcedor, segundo, muitos às vezes nem sabiam das tais “normas” de determinados esportes ou simplesmente não se importaram. E cai entre nós. Atrapalha? Sim, claro. Mas não é o fundamental para a vitória ou derrota (na grande maioria dos casos e esportes). Lembrando que muitos brasileiros são vaiados e são alvos de insultos bem piores no futebol europeu, por exemplo. Sem comparação, só a título de curiosidade.

Alguns “vexames” nacionais

Não quero ser o chato que vai chamar derrotas de vexames. Mas, infelizmente, não há outro nome para chamar algumas participações, por isso, as aspas também. Primeiro, a natação do Brasil. O esporte que mais recebeu investimento para os Jogos não trouxe nenhuma medalha par ao país. Sabíamos das dificuldades. Pátrias como os Estados Unidos, Austrália e China são muito fortes em diversas provas, mas pelo menos um atleta demonstrou o descontentamento e saiu do chamado “lugar comum” e foi Bruno Fratus. Questionado por uma repórter, se ele saia satisfeito com sua prova (6º lugar nos 50m livres), ele respondeu: “Não, estou felizão, né. Fiquei em sexto. Desculpa, né, mas…tô, bastante”, disse Fratus. O atleta acabou pedindo desculpa após o incidente.

Há ainda que relatar a questão do vôlei feminino, que acabou sendo abafado, já que o Brasil foi eliminado para a China, medalhista de ouro. Neste caso, vexame não é a melhor palavra, mas sim, frustração. Pois esta geração e Zé Roberto, certamente, poderiam chegar a mais uma medalha de ouro, a terceira seguida.

Para finalizar, a projeção não conquistada pelo Brasil. Eu, particularmente, não vejo tanto a questão do quadro de medalhas como algo de suma importância. Mas como ele existe, havia uma projeção de top 10, que não aconteceu. E, além disso, o Brasil foi, pelo menos nos últimos anos, o pais que menos evoluí de um ciclo olímpico para outro sendo o país sede. Apesar de medalhas inéditas, a participação de modo geral, deixou um pouco a desejar, por conta da expectativa, já que esta foi a melhor participação do país nos jogos.

Austrália, cangurus e o prefeito

Não sou especialista em política, e também não me interesso tanto para tal. Mas o prefeito do Rio, certamente, não merece ser lembrado após alguns relatos. Primeiro,  toda a questão envolvendo o prédio da Austrália na Vila Olímpica. Com graves problemas de infraestrutura e depois com a declaração de que “estava quase botando um canguru na frente do prédio deles, para ficar pulando e eles se sentirem em casa” não pegou nada bem. Mas como Eduardo Paes já deu algumas declarações ainda piores sobre outros assuntos, essa também caiu no esquecimento.

Espírito de vira-lata e o ufanismo

Como sempre, na internet, tem que se criar alguma “guerra virtual” e uma delas, foi a entre os “espírito de vira-lata”, onde o próprio brasileiro se desmerece e enaltece outras nações e os ufanistas, que esqueceram os problemas nacionais e simplesmente focaram em saldar a pátria. Nos dois casos, é melhor esquecermos. Claro, o Brasil não importa problemas. Principalmente o Rio. Os jogos se foram e eles ficaram. Nem tudo deu certo, e nem tudo deu errado. Patriotismo em competições esportivas sempre existiu e sempre existirá, portanto, segue o jogo. Mas não desmereça o que foi feito por muitos atletas, que superaram, sem dúvidas, desde falta de apoio a falta de credibilidade.

Foto: Saulo Cruz/Exemplus/COB
Histórias como as de Maicon, podem inspirar muitos jovens, mesmo sem oportunidade a ingressar no esporte – Foto: Saulo Cruz/Exemplus/COB

Bem, se você chegou ao final deste longo texto, primeiro, obrigado. Segundo, explicando as aspas no “esquecer”. Não devemos esquecer o que erramos e os problemas que passaram. Mas serve de reflexão, pois a primeira Olimpíada na América do Sul foi um sucesso, apesar da crise financeira, Zika, obras superfaturadas e problemas de segurança. O que isso muda no nosso dia a dia? Talvez o olhar sobre histórias como dos atletas refugiados ou de Maicon Oliveira, do taekwondo, que já foi pedreiro e garçom, e conseguiu chegar lá. O esporte sempre nos fará refletir, e não esquecer. O problemas seguem, e certamente, não aumentarão com os jogos que passaram.